Martins Ferreira

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Victória Nunes Martins

(biografia)

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A personalidade forte, sob vários aspectos, foi uma característica marcante de Vitoria da Ressurreição Nunes, nascida no dia oito de novembro de mil novecentos e treze, em Freguesia de Ranhadas, Concelho de Mêda, no distrito da Guarda, próximo a Viseu, em Portugal, filha mais nova de Manoel Felicio Nunes e de Antonia de Jesus Silva, sendo suas irmãs Olaia (mais conhecida como Eulália) e Felisbela, além de dois irmãos, que faleceram ainda bem jovens. Pode-se dizer que seu nome sintetiza o aspecto de luta e renovação que permeou toda sua trajetória de vida. Quando criança, não gostava muito de seu nome, até que um dia lhe explicaram que Vitoria era um nome importante e forte, tanto que até mesmo uma admirada rainha da Inglaterra tivera esse mesmo nome.

 

As dificuldades começaram bem cedo: dois anos após seu nascimento, ela e suas irmãs perderam a mãe. Victoria passou a ser criada por sua avó paterna, Luduvina Felicio de Jesus, até completar nove anos de idade. Nesse período seu pai trabalhou duro, almejando a criação das filhas. No convívio no lar de seu avô paterno, João César Nunes, que era professor e escritor de pequenos poemas em formas de quadras, Vitoria aprendeu muitos versos criados por ele, ou por outros poetas, e os repetiu durante toda sua vida. Eis alguns versos que ela dizia:

 

Meu chapeuzinho de palha.

De pelo não posso ter.

De pelo custa dinheiro.

De palha posso fazer.

 

Após esse período, o viúvo Manoel de Jesus Felicio Nunes saiu de Portugal com suas três filhas e veio morar no Brasil junto com Maria Rita, a madrasta das meninas, de quem Vitoria guardava boas recordações. As três irmãs cresceram trabalhando como cozinheiras, costureiras, babás e damas-de-companhia para ajudar seu pai. Quando jovens, casaram-se: Olaia de Jesus Nunes casou-se com José Joaquim Novo e teve uma filha, depois, viúva, casou-se com Abílio da Silva Pereira, Felisbela da Purificação Moraes casou-se com Alcino Baptista Moraes e teve oito filhos e filhas, e Vitoria casou-se com João Martins, português, comerciante, filho de Manoel Martins e Ana Maria Pereira, no dia dezesseis de dezembro de mil novecentos e trinta e três. Nessa ocasião, seu nome passou a ser Victoria Nunes Martins (a maioria dos registros não apresenta o acento gráfico na letra "o" de seu nome).

 

 

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Foi difícil para João Martins conquistar a moça para que se casasse com ele. Ela procurava subterfúgios, mas ele sempre a surpreendia e procurava convencê-la a se unir a ele em matrimônio. O início da vida conjunta foi tranquilo nos aspectos de subsistência, pois João prosperava na área comercial na região do bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Porém, com o passar dos anos as dificuldades financeiras foram aumentando. Era o período da Segunda Guerra Mundial e a economia brasileira desequilibrava-se, afetando muito a indústria e o comércio. O casal acabou se mudando para um sítio que comprara na região da cidade de Embu, próximo ao bairro de Campo Limpo, em São Paulo, na década de 1940, onde ambos plantavam e colhiam verduras, levando-as para serem comercializadas no mercado municipal do bairro de Pinheiros.

 

Nesse período foram nascendo os filhos do casal, formando uma família bastante numerosa que, por um lado, obrigava a uma subsistência modesta, mas que por outro lado agregava mais e mais pessoas para trabalhar, fazendo-na prosperar. Ciente das dificuldades e sem querer perder o controle de sua família, Victoria atuava de modo enérgico para que seus filhos e filhas não fossem conduzidos por caminhos inadequados. Ela gerou e deu à luz treze pessoas, sendo que destas, três faleceram ainda na primeira infância. Batizou as crianças seguindo os preceitos da Igreja Católica Apostólica Romana, com os seguintes nomes: Maria de Lourdes Martins Ferreira, Clotilde (falecida na infância), Neide de Fátima Martins Abati, falecida em 2025, Ana Maria Martins Soares, Hortência (falecida na infância), Ercília Ascenção Martins da Silva, João Pereira Martins, falecido em 2024, Amílcar Pereira Martins, falecido em 2004, Trindade Martins Izidoro, Elídio Pereira Martins, José (falecido na infância), Inês Martins Villaça, falecida em 2025, e José Pereira Martins.

 

Preocupados em alfabetizar e educar seus filhos, Victoria e João mobilizaram as pessoas da comunidade onde moravam para que houvesse no local uma escola. Assim, lideraram a criação do primeiro espaço para ensino da região do Pirajuçara, no Embu, onde hoje se localiza o Jardim Vitória, assim denominado em referência a ela. Atualmente na região existe a Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau João Martins, homenageando o esposo dela e o pioneirismo do casal, sempre preocupado com uma sociedade melhor e mais justa para todos. Na década de 1950, a família mudou-se para uma casa no bairro Ferreira, em São Paulo, após breve passagem pelo bairro Vila Madalena. Em todas regiões em que moraram, os dois criaram laços de amizade e promoveram a integração comunitária em prol da harmonia e do bem social.

 

Além da perda da mãe, quando ela era pequena, e de três de seus filhos na tenra idade, outro momento de grande dor que Victoria teve em sua vida foi quando perdeu seu marido, no dia oito de abril de mil novecentos e cinquenta e seis, vítima de cirrose hepática tóxica, decorrente de malária, sendo que no ano anterior havia perdido também seu pai. Assim, ficou desamparada, com dez filhos, sendo que o mais novo ainda nem completara dois anos de idade. Porém, já calejada pelas adversidades, ela não se abateu. Transformou a dureza que a vida lhe impunha em dureza na resistência para encará-la. Liderou seus filhos no sentido de todos contribuírem para a superação das dores e das dificuldades. Contou com o apoio constante das filhas jovens e de sua primeira filha, já casada, e seu genro. As crianças pequenas cresceram, algumas filhas e filhos conseguiram estudar e se formar em cursos superiores, contando com o apoio de todos, inclusive daqueles que não tiveram condições de avançar em seus estudos. Pouco a pouco o lar de Vitória voltou a prosperar. Todos trabalhavam duro e venciam obstáculos sob sua orientação. Tornou-se uma mulher austera, exigente e participativa nas iniciativas de seus filhos e filhas. Nesse sentido, foi acolhendo muitas pessoas em seu lar: amigos dos filhos e filhas e amigos dos amigos. Aquele lar tornou-se referência e duas mulheres acabaram solicitando a ela que as ajudasse a cuidar de duas meninas. Ela abrigo-as em um lar em equilíbrio. Assim, Maria Dias e Maria da Penha Alves foram recebidas como irmãs entre os filhos de Victoria.

 

Nessa época a casa vivia repleta de jovens. Eram os anos da década de 1960 e fervilhavam os movimentos estudantis, reações a repressões ditatoriais do governo, reconhecimento e valorização das mulheres e muitos debates, projetos e ações nasciam no lar de Victoria e partiam para fora dele, reverberando o calor das mudanças que a sociedade precisava ter. Aquela mulher e sua casa passaram a ser um referencial quase simbólico para as transformações que começavam a ocorrer. A confiança dela em seus filhos e filhas era integral e se dedicava a ouvir, ponderar e seguir apoiando as proposições feitas por cada um. Às vezes os sonhos e os devaneios eram tamanhos, que ela certamente sentia-se aflita no seu íntimo, mas dissimulava sem expressar qualquer temor, sempre pronta para a luta.

 

Beirando os sessenta anos, com todos filhos e filhas já adultos e trilhando seus caminhos inspirados na força e energia da mãe, Victoria pela primeira vez relaxou um pouco sua rigidez e decorreu daí os primeiros impactos físicos da exigência psíquica que sua vida lhe fez. Sua saúde começou a ficar abalada e ela passou a ser tratada por alguns médicos e a tomar remédios antidepressivos.


Seus filhos e filhas foram se casando, seus netos foram nascendo, e ela passou a morar no bairro Capão Redondo, em São Paulo, na década de 1970, próxima à moradia da família de uma de suas filhas. Ali, seu ímpeto de liderança não sossegou: acompanhava de perto as ações de alguns de seus netos, telefonava para outros, impunha-se a si mesma uma obrigação constante de sair de sua casa e visitar os lares de seus filhos e filhas para verificar como estavam correndo as coisas e dar sua opinião. Como geralmente costuma acontecer em todas as famílias, as vezes o conflito de gerações ocorria, pois na concepção de vida de Victoria as coisas deveriam ser de um jeito e na de seus descendentes deveriam ser de outro. Em alguns momentos aquilo talvez parecesse uma implicância sem sentido, mas superava-se, pois o que havia na verdade era uma preocupação dela para que tudo desse o mais certo possível, para que tudo corresse bem e de modo equilibrado, com respeito às outras pessoas, nas iniciativas que seus eles tomavam. Ela sempre repetia: "filha és, mãe serás, como fizeres, encontrarás".

 

Essa rotina e a falta de expectativa de realizações na vida madura começaram a perturbar Victoria. Uma de suas filhas encaminhou-a para participar de atividades com outros idosos em grupos denominados da "terceira idade" e isso renovou seu ânimo, pois possibilitou seu reencontro com antigas amigas e amigos. Alguns filhos e filhas levaram-na passear em parques e centros comerciais, em viagens particulares, ou com grupos de idosos, para em várias cidades, levaram-na inclusive até sua terra natal, em Portugal. Ela apreciava também visitar praias, chegando a ter um pequeno apartamento na Praia Grande, no litoral sul de São Paulo, onde costumava passar alguns dias do ano. Desse modo, ela voltou a ter mais paz e alegria.

 

Quando completou oitenta anos, seus filhos, filhas, genros, noras, netos, netas e duas bisnetas organizaram e realizaram uma comemoração marcante, que a emocionou e a deixou muito feliz, com uma sensação de dever cumprido na criação e educação de seus descendentes. Victoria passou a contar então com um carro e um motorista, que seus filhos e filhas lhe ofereceram, que a levava visitá-los e também aos encontros da "terceira idade".


No ano de dois mil e quatro, ela sofreu novamente com a perda de um de seus filhos, que faleceu após um período de internação hospitalar. Ficou mais introspectiva e calada e, pouco a pouco, mais fragilizada, foi necessitando de acompanhamento médico mais intenso e da acessoria de cuidadoras.


Victoria faleceu no dia dezoito de janeiro de dois mil e onze, com noventa e sete anos de vida completados. Nesta data, sua família contabilizava como descendentes trinta e um netos e netas e dezesseis bisnetos e bisnetas. Ela foi sepultada no cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo, Brasil.

 

Entre as brincadeiras verbais que adorava fazer, com charadas, ironias, e os versos que gostava declamar, brilhava uma alma cheia de otimismo e fé em Deus, na certeza de que sempre os dias que virão poderão ser melhores que os de hoje. Em seus últimos momentos, essa mulher que orou com plena devoção em todas as noites de sua vida, quase não conseguia falar. Mas no seu íntimo, nunca deixou de estar com Deus em seu coração. Hoje apenas Ele tem o carinho dela declamando seus versinhos:

 

 

Nesta cama quero me deitar

Para dormir e descansar.

Se a morte vier me buscar,

Entrego-me ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo,

Entrego minha alma ao Menino Jesus.

 

São Paulo, 26 de julho de 2026.

 

Texto original (de 18/01/2011) e primeira fotografia (Victória com 80 anos): Martins Ferreira.

www.martinsferreira.net