Martins Ferreira
Desidério Ferreira
(biografia)
Desidério Ferreira nasceu em Joazins, na cidade de Cinfães, região do rio Douro, em Portugal, no dia 8 de março de 1900. Migrou para o Brasil, onde chegou em 17 de março de 1924. Sua primeira atividade neste país foi como estivador na cidade do Rio de Janeiro e posteriormente, após reunir algumas economias, mudou-se para São Paulo, cidade em que prosperou como empreendedor. Atuou inicialmente como lavrador e pecuarista, sendo que em pouco tempo tornou-se comerciante, ramo em que se destacou.
Casou-se com Maria Joaquina Corvacha Ferreira em 1929, sendo ela também portuguesa, nascida em 1909 na cidade de Felgueiras. Na década de 1930 o casal abriu um empório na estrada de Estrada de Itapecerica, na cidade de São Paulo, que a partir de 1955 passaria a ser denominada como avenida Prof. Francisco Morato, no trecho entre o rio Pinheiros e o município de Taboão da Serra. Esse comércio tornou-se importante ponto de referência e de fornecimento de alimentos e materiais diversos para pessoas que começavam a vir morar na localidade próxima ao Instituto Butantan, além de abastecer viajantes com víveres, pois tal empório se caracterizava como o último grande posto de abastecimento da capital paulista para aqueles que rumavam para o sertão, em direção ao vale do Ribeira, ao estado do Paraná e sul do Brasil.
Com o passar dos anos, a empresa cresceu e os quatro filhos do casal, Acácio Ferreira, Helio Ferreira, Oscar Ferreira e Walter Ferreira, construíram o primeiro prédio da região, no qual instalaram uma indústria de panificação denominada Padaria e Confeitaria Jardim Ferreira. Nesse período, a C.M.T.C., Companhia Municipal de Transportes Coletivos, implantou uma linha de ônibus para atender aos moradores do bairro, que apresentava população crescente, cuja linha do trajeto era denominada FERREIRA-PINHEIROS, já que tais bairros eram seus pontos terminais. Os filhos do senhor Ferreira passaram então a apoiar diversas ações sociais e coletivas no bairro, entre as quais se destaca a construção da Igreja Nossa Senhora de Fátima e a tradicional Romaria do Ferreira a Bom Jesus de Pirapora, uma das mais antigas da cidade, a qual ainda é realizada todos os anos no mês de novembro, caracterizando-se como um expoente cultural tradicional da cidade.
Em 1946, o Jockey Club de São Paulo adquiriu uma propriedade no bairro, a qual era conhecida como “Chácara do Ferreira”, com o objetivo de criar e treinar cavalos para corridas. O empório do Ferreira também se tornou fundamental apoio para os trabalhadores desse novo empreendimento no bairro. Na década de 2010, alguns netos de Desidério Ferreira, moradores antigos e tradicionais do bairro, passaram a apoiar com grande empenho as iniciativas para que a antiga Chácara do Jockey Club se tornasse um novo parque para a cidade de São Paulo, participando de reuniões realizadas na Paróquia Nossa Senhora de Fátima do Ferreira, na regional do Butantã e na referida chácara.
Desidério Ferreira e seus descendentes sempre moraram no bairro e procuraram apoiar novos moradores e novos empreendimentos na região: ele acabou se tornando uma personagem lendária e estimada pelos habitantes do bairro, haja vista que sempre foi muito justo e acolhia com benevolência às pessoas mais necessitadas que lhe procuravam em seu empório, chegando a oferecer alimento a pessoas carentes, sem lhes cobrar nada em troca. Por décadas esse homem lutou para atender às necessidades diversas de moradores e viajantes, procurando nunca lhes deixar faltar nada daquilo que procuravam em seu empório, como itens de básicos para subsistência, por exemplo. Tornou-se lendária a figura daquele português que generosamente sempre oferecia um copo de café, de leite, ou um sanduíche de pão com mortadela sem nenhum custo às pessoas pobres e carentes que passavam pela "venda do Ferreira".
Em períodos turbulentos e de crise na produção e na distribuição de alimentos, como os da revolução de 1932 ou da segunda guerra mundial, ele foi o único comerciante da região sudeste de São Paulo que prontamente e de modo racional e objetivo conseguiu atender às demandas da população local, graças à sua enorme credibilidade junto a fornecedores, à sua liderança e sua diplomacia junto a seus pares, ao seu senso de responsabilidade e justiça como distribuidor de produtos e ao seu cuidado para com as famílias mais vulneráveis. O prestigio do fundador do bairro junto à população local era tão intenso que, quando faleceu, em 1962, o cortejo de carros das pessoas que acompanhavam seu funeral, o qual partiu do bairro Ferreira até o cemitério São Paulo, em Pinheiros, chegou a congestionar por quilómetros toda a extensão da av. prof. Francisco Morato.
Após o falecimento de Desidério Ferreira, moradores, empresários e comerciantes das regiões sul e oeste da capital, bem como representantes do poder público, manifestaram solenemente uma homenagem à figura ilustre do bairro, denominando uma rua local com seu nome: rua Desidério Ferreira (cep 05632-000). Nas décadas de 1960 e de 1970 começaram as cogitações para que fossem realizadas obras do metrô em São Paulo, tendo uma das linhas como ponto terminal o bairro, figurando uma estação com a denominação FERREIRA nos primeiros projetos oficiais daquela que viria a ser a futura linha amarela do metrô de São Paulo. Posteriormente, essa mesma estação foi denominada VILA SÔNIA.
Ao longo das décadas seguintes, a família Ferreira expandiu seus negócios, construindo e gerenciando, além de lojas de roupas, sapatos, alimentos e lotérica, outras duas padarias: a "Desidério Ferreira", no bairro do Campo Limpo, em São Paulo, e a "Acácio Ferreira", no município de Taboão da Serra. Também empreendeu na criação e comércio de animais, com destaque para o filho Helio Ferreira e o neto Desidério Ferreira Neto, que se tornaram produtores rurais no município de Itapecerica da Serra, e o filho Walter Ferreira, o "Tico", que criou um pesqueiro no mesmo município, razão pela qual, em reconhecimento ao pioneirismo dessa família nessa região, em um dos bairros de Itapecerica da Serra denominou-se, há muito tempo, uma via de circulação como "Estrada Desidério Ferreira", hoje rua Desidério Ferreira (cep 06887-200).
Na década de 2000, algumas propriedades de Desidério Ferreira, as quais já se encontravam aos cuidados de seus descendentes, foram desapropriadas para que fosse construída a estação Vila Sônia do metrô - inclusive o terreno em que existiu o histórico empório do Ferreira, marco importantíssimo do bairro, bem como o prédio da Padaria e Confeitaria Jardim Ferreira. Ambas as construções, que ficavam em esquinas da avenida Prof. Francisco Morato com a rua Caminho do Engenho, foram demolidas sem que houvesse nenhuma atenção ou cuidado com a preservação da memória do bairro, o que se configurou como um total descaso e desrespeito do poder público com a memória, a história e a cultura dessa região da cidade.
No ano de 2026, a única e última propriedade remanescente da memória do homem que foi o fundador do bairro, localizada na rua Francisco Marson, número 59, foi desapropriada para a realização da construção de uma nova estação da linha amarela do metrô de São Paulo, encostada ao Parque Chácara do Jockey, no bairro Ferreira. Trata-se de um terreno que foi comprado pelo senhor Ferreira para o plantio de árvores frutíferas e criação de animais, com vistas ao abastecimento de seu empório, no qual ele trabalhou duramente por muito anos e vários dos primeiros moradores da região também trabalharam. Na década de 1960, o empresário passou essa propriedade para seu filho Helio Ferreira, também empresário e comerciante, que com o apoio do pai construiu uma casa no local, com o fito de ser a moradia de sua família. Na época em que a construção foi realizada, essa rua não tinha infraestrutura urbana, não havia asfalto, era em terra, sem guias, sarjetas, ou calçadas, ou seja, era bastante precária. A denominação então era “rua Dona Cirila”, sendo essa casa uma das únicas construções existentes nessa localidade. A obra foi considerada inovadora no bairro, em termos conceituais arquitetônicos. Ela foi construída com tijolos da olaria de Helio Ferreira, feitos artesanalmente e com métodos que já não se utilizam mais. Também integrou diversos moradores do bairro quando foi feita, os quais formavam a força de trabalho na mão de obra. Nesse sentido, cabe destacar o senhor Pedro Martins, mestre de obras, e também o senhor José Alves, conhecido como “Zé das Pedras”, que realizou todo trabalho de acabamento, com diversos tipos de azulejos e pedras. Foi ele também o artesão responsável por ação semelhante quando da construção da principal igreja católica do bairro, tendo feito toda pedraria do altar.
São Paulo, 18 de julho de 2026.